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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Partazana (Partisan): Uma Introdução




Olá! Hoje eu falarei sobre a partazana, ou partisan, uma lança muito pouco conhecida do grande público, mas que foi muito popular entre exércitos europeus a partir do século XVI d.C e que seguiu em uso até meados do século XVIII d.C, quando a introdução de novas armas de fogo fizeram-na ser reduzida ao uso cerimonial.


Termo
O termo partazana deriva do francês “partisan” que literalmente significa “partido”. Sendo assim, partazana seria uma maneira de se referir a lanças com ganchos nas laterais (lanças partidas) que foram muito populares entre infantarias, sobretudo as do Leste Europeu, que as utilizavam para barrar ataques de cavalaria.

Um tipo de partazana. 



Outro tipo de partazana.


Uso
Como já dito, eram armas de infantaria, que as utilizavam principalmente contra cavalaria, mas também eram boas para enfrentarem espadachins, pois os ganchos ajudavam a desviar ataques de espadas. Uma partazana tinha entre 1,80 metro e 2,70 metros de comprimento e era dividida em duas partes: haste, que era feita de madeira e a ponta, sempre de metal.
Apesar de ter sido muito utilizada no Leste Europeu, a arma foi bastante difundida pelo continente europeu de maneira que como já dito em outro artigo, os portugueses do século XV a utilizavam.


Bom, era isso. Caso desejem saber mais sobre armas e artes marciais históricas europeias (HEMA) cliquem nas sugestões de artigos que estarão abaixo. Fiquem com Deus e até mais!





sexta-feira, 5 de junho de 2020

O Armamento Lusitano (de Portugueses) do Século XV




Olá! Neste texto eu irei mostrar e comentar sobre o armamento utilizado pelos portugueses no final do século XV, durante a época das Grandes Navegações.









Exemplos

Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros, que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
Que nunca as queiras ver como inimigo."


Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses, e peitos reluzentes,
Malhas finas, e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos, e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas:”
– Os Lusíadas, Canto I, Estrofes 66 e 67



A estrofe 67 descreve ligeiramente as armas usadas pelos valentes portugueses que debaixo do comando de Dom Vasco da Gama atravessariam o Cabo das Tormentas e chegariam nas Índias! É importante frisar que este texto citado é de uma época em que D.Bartolomeu Dias havia chegado ao Cabo das Tormentas (da Boa Esperança) e agora era missão de D.Vasco da Gama ultrapassá-lo. Neste momento em que o texto é escrito, os portugueses (lusitanos) ainda estavam na Costa Africana do Atlântico, eles ainda não haviam contornado o Cabo das Tormentas. Mas vamos às armas?





As Armas em Si



Arnês
A primeira arma descrita é o arnês. Mas o que é um arnês? Nada mais é do que uma armadura completa, que cobre o soldado da cabeça aos pés. Em inglês o arnês é chamado de “full-plate armour”. Abaixo um exemplo de arnês:









Peitos

Os Peitos também possuem o nome de “couraça” ou “couraça peitoral” (termos derivados do francês “courace”, tropas napoleônicas que montavam à cavalo e que usavam peitoral chamados de “couracier”). O peitoral é parte do arnês, mas poderia ser utilizado em separado sem as outras partes do mesmo.




Malhas Finas

As malhas, também conhecidas como cota-de-malha eram velhos conhecidos dos exércitos ocidentais. Os romanos em suas guerras contra os celtas viram esses povos usando malha em combate e copiaram a mesma, adotando-a em suas Legiões! As malhas eram boas para defender ataques de corte com a espada e com a lança, embora não fossem resistentes contra cortes de machados. Abaixo um exemplo de cota de malha:







Pelouros

Pelouros nada mais são do que balas (munição) usadas em canhões e em espingardas mais arcaicas. Os pelouros eram feitos de pedra que eram esculpidas em formato esférico. Abaixo exemplos de pelouros:







Aljavas

As aljavas nada mais eram do que estojos onde se depositava (guardava) as flechas (que no texto de Os Lusíadas é chamada de “sagitíferas”, termo derivado do latim “sagitta” que significa “flecha”). Abaixo exemplos de aljavas com sagitas (flechas) depositadas:







Partazanas

A partazana (ou patisan) é uma lança com a ponta fina ou grossa (depende do modelo) que possui “abas” semelhantes a ganchos, que podem proteger o usuário de ataques cortantes. Abaixo um exemplo de partazana:







Chuça(o)

Nada mais é do que uma lança curta com ponta de ferro ou aço aguda. Podem ser utilizadas para ataques de estocada de curta distância ou para arremesso, embora normalmente era utilizada na primeira “modalidade”. Abaixo um exemplo de chuço(a):







Conclusão

As armas utilizadas nesse período das Grandes Navegações tinham as suas origens na Europa Medieval e várias delas são estudadas por grupos de HEMA (Historical European Martial Arts), por isso julguei importante exibi-las aqui no blog! Ao contrário do que aprendemos na escola, o uso de armas de fogo era secundário nessa época se formos levar em consideração a disponibilidade de armas brancas que se utilizavam nesse período (fins do século XV).

Eu também publiquei um vídeo falando sobre o armamento utilizado pelos portugueses no século XV, o áudio está em português do Brasil:






Fiquem com as sugestões de outros artigos e até a próxima!




LEIA TAMBÉM: A Espada Montante (Zweihander)



LEIA TAMBÉM: Biografia&Manuais: Dom Diogo Gomes de Figueiredo



LEIA TAMBÉM: Biografia&Manuais: O Rei Dom Duarte I E A Sua Obra de HEMA


sexta-feira, 27 de março de 2020

Títulos Nobiliárquicos – Parte 1




Olá!



Neste texto iremos falar as origens e significados dos três títulos de nobreza mais simples: o Cavaleiro, o Barão e o Visconde.





Cavaleiro

O título de cavaleiro tem as suas origens na Roma Antiga, onde a classe média era chamada de “equestrii” (“cavaleiros”): eram homens que tinham dinheiro suficiente para comprar um cavalo e que quando convocados para a guerra (no sistema da Legião RomanaPré-Mariano) normalmente serviam e combatiam montados.

A partir do século III d.C, o legionarii começou a perder importância para o equestrii, que já não era mais um cidadão de classe média, mas sim um soldado recrutado nas massas e que servia a Legião Romana regularmente.

O título deu uma arrefecida com a Queda do Império Romano do Ocidente (476) para voltar com força total com os francos a partir das reformas que Carlos Martel promoveu após a famosa Batalha de Poitiers/Tours (732): durante a famosa batalha, os francos só conseguiram superar a cavalaria árabe por estarem em um terreno alto além de terem armas longas (espadas e lanças) e pelo fato de os muçulmanos terem se desorganizado no ataque aos francos.

Os cavaleiros francos foram feitos inicialmente para combater os cavaleiros islâmicos que ainda se encontravam na Septmânia e nos Pirinéus. Embora eles tenham sido utilizados pelos francos contra os lombardos pagãos nos tempos de Pepino, o Breve (filho de Carlos Martel e pai de Carlos Magno). A partir de então, os povos europeus cristãos passaram a terem cavaleiros em suas fileiras: guerreiros devotados que proferiam votos de fidelidade e que desde a infância ingressavam nesse caminho. Haviam sim cavaleiros corruptos, mas isso não era a regra.

Por causa dos constantes conflitos na Península Ibérica (A Reconquista) ser um cavaleiro inicialmente era um título dado para qualquer camponês que tivesse um cavalo disponível para a batalha (semelhante ao equestrii republicano romano), porém com o tempo o título ganhou grande importância sendo que por causa das ordens religiosas de cruzados que atuavam dentro da Península, ser sagrado cavaleiro tornou-se de suma importância não apenas como título, mas o real significado de que aquele guerreiro era um cristão e que combatia “o bom combate”, eram títulos carregados de grande importância e dever.

Nos reinos da França e Inglaterra, o Cavaleiro era o mais baixo título de nobreza e visto pelos grandes nobres como um pouco melhores do que a plebe, sendo que no último país mencionado ser um cavaleiro dava permissão legal para que uma pessoa portasse uma espada dentro de cidades (um camponês não poderia fazê-lo).

Hoje em dia ser sagrado um Cavaleiro é um honraria dada a membros civis em países onde ainda se conserva a Monarquia (como o Reino Unido) ou onde essa tradição ainda é muito forte (como na República de Portugal).





Barão

É derivado de uma palavra em germânico antigo e que significa “homem livre”. Os homens livres (barões) originalmente configuravam o status de todo homem germânico que pertenciam a uma tribo e que não eram escravos. Os barões eram todos aqueles que eram convocados pelo rei da tribo para pegarem em armas e cujas vozes se faziam ouvir nas assembleias de guerreiros.

Como os germânicos conquistaram todo o Império Romano do Ocidente, o título se popularizou a tal ponto, que “barão” se tornou sinônimo de “nobreza”, aquilo que em Portugal se chamaria “fidalgo” e em espanhol “hidalgo”.

Em títulos nobiliárquicos, ser um Barão é estar abaixo de todos os títulos, exceto o de Cavaleiro e o de Visconde...





Visconde

O termo deriva do latim “vice-comites” ou em uma tradução literal “o vice-conde”, sendo o termo “vice” significando “aquele que fica no lugar de”. Ou seja: originalmente o visconde respondia pelas funções do conde, quando este se ausentava de suas terras (Condado) para atender as convocatórias dos Soberanos. Com o tempo deixou de ser uma função (bastante honrada) para ser um título de nobreza equiparável ao de um Barão e acima do título de Cavaleiro.





Bom, estes foram os títulos deste artigo. No próximo artigo desta série eu falarei sobre os Condes, Duques e Marqueses. Não perca!


LEIA TAMBÉM Títulos Nobiliárquicos - Parte 2

LEIA TAMBÉM Títulos Nobiliárquicos - Parte 3

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Sistemas de Graduação em Artes Marciais




Olá! Hoje eu falarei sobre as origens e para onde estão indo os sistemas de graduações nas artes marciais e a minha solução para esse problema.





Origens dos Sistemas de Graduações

Faixa branca para iniciantes e faixa preta para alunos que deixam de sê-lo para tornarem-se professores. O atual sistema de graduação é o de faixas e tem as suas origens no Judô: o mestre Jigoro Kano optou por criar um sistema de graduação onde cada nível é representado por uma cor de faixa (a faixa serve para deixar o kimono preso). No Judô a faixa para iniciantes é a branca, a seguinte é a cinza, as posteriores á esta são as de cores: azul, amarela, verde, roxa, marrom e a preta. Quando se consegue a faixa preta, torna-se primeiro dan e pode-se seguir até ao décimo-segundo dan. Isso no Judô.

O mestre Gishin Funakoshi, criador do estilo shotokan de Karatê-dô, copiou do Judô o sistema de faixas, embora tenha feito algumas alterações. Oito décadas após o mestre Funakoshi ter adotado o sistema de faixa do Judô, praticamente todas as artes marciais fizeram o mesmo: capoeira, krav maga, ninjutsu, boxe, kickboxing, muay thai, kung fu... todas essas e outras artes marciais possuem graduações de cores! Existem boatos que afirmam que ocorre um comércio de faixas. Como eu nunca vi isso acontecer, fica apenas no boato, mas pela internet encontramos os mais variados relatos sobre essa prática.





Graduações na Cavalaria

As graduações na Cavalaria se resumiam a apenas três graus: Pajem, Escudeiro e Cavaleiro. Sobre cada uma dessas graduações eu falarei mais tarde em outro artigo. Mas por hora basta saber que eram três graduações e que elas podiam durar até dez anos para serem concluídas!





A Minha Proposta

Baseado nesse sistema de graduações (o da Cavalaria), eu acredito que um sistema correto de graduação deveria ser assim proposto: Básico, Intermediário e Avançado. Simples assim! Não vejo necessidade, especialmente em HEMA de haver graduações inspiradas no Judô, mas sim no velho sistema de graduações que por quase mil anos perdurou na arte marcial suprema do Ocidente!



No mais é isso, fiquem com Deus e até a próxima!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Biografia&Manuais: O Rei D.Duarte I e a Sua Obra de HEMA!




Olá! Em muitos grupos de discussão de HEMA e assuntos correlatos, nós vemos muitas citações de fontes italianas, alemães e inglesas, porém nenhuma citação de fontes portuguesas. E nós temos fontes portuguesas sim: os livros “Leal Conselheiro” e “Bem Cavalgar”, escritos pelo rei de Portugal Dom Duarte I é a prova disso!





Quem Foi?

Dom Duarte I de Portugal foi o segundo rei da Casa de Ávis e herdeiro direto do grande rei Dom João I. Foi durante o reinado de D.Duarte que o navegador Gil Eanes conseguiu dobrar o Cabo Bojador, na África (1434), o que apeteceu os europeus na arte de navegar pelo Oceano Atlântico! O rei Dom Duarte era irmão do famoso Dom Henrique, o Navegador.



Dom Duarte quando era apenas um infante, foi armado cavaleiro na ilha de Ceuta, após demonstrar o seu valor em combate durante a conquista portuguesa daquela ilha (1415). Ou seja: era alguém apto para falar sobre a cavalaria e a arte de se combater e isso vinha de berço, pois o seu pai, Dom João I era o primeiro monarca da Casa de Ávis e havia tido que conquistar o seu trono pela força das armas contra o rei de Castela, Juan I da Casa Trastâmarra. Mas sobre esse conflito, eu escreverei em outra ocasião.



Assim sendo, muita da experiência prática da Casa de Ávis pode ter sido condensada na obra “Bem Cavalgar”!



Retrato de Dom Duarte de Portugal.






As Obras

O “Leal Conselheiro” é uma obra que abrange aspectos morais ligados á Governação e as Virtudes Morais da Cavalaria. Já a obra “Bem Cavalgar” é sobre a Cavalaria especificamente, ensinando artes marciais, infelizmente essa última obra ficou incompleta: o rei D.Duarte morreu antes de poder finalizá-la (1438).



As obras possuem as seguintes passagens:



·        1438: após a morte do rei D.Duarte I, a sua esposa Eleonora de Aragão leva as suas obras Leal Conselheiro e Bem Cavalgar consigo para Nápoles.

·        1438-1495: as duas obras permanecem na Real Biblioteca de Nápoles.

·        1495: o rei da França, Carlos VIII, invade a Itália e após a sua conquista de Nápoles, espolia para si entre outras coisas, as duas obras feitas pelo rei D.Duarte I.

·        1495-Atual: as obras Leal Conselheiro e Bem Cavalgar permanecem em posse da Bibliothèque Nationale de France.







Bom, eu espero que tenha sido proveitoso este texto, fique com Deus e até mais!

LEIA TAMBÉM:

Biografia&Manuais: Fiore dei Liberi

Biografia&Manuais: Walpurgis Fechtbuch

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Gládio (Gladius): Uma Introdução!






Olá! Hoje estudaremos um pouco sobre o gládio.





Origem

Gládio é um termo aportuguesado do latim “gladius”, palavra esta que basicamente significa: “espada”. Apesar do nome desta espada ser latino, a origem da arma é na Península Ibérica: durante a Segunda Guerra Púnica (218 a.C – 201 a.C), os romanos tiveram que invadir as colônias que pertenciam á Cartago e que estavam localizadas na já referida península. Durante a invasão, os romanos tiveram que se defrontar com tribos de celtas que eram aliados dos púnicos (ou cartagineses, se você preferir) e algumas delas utilizavam uma espada curta contra os romanos (que na época empunhavam a kopis, afinal as legiões romanas eram herdeiras dos hoplitas helênicos) que viram na arma um grande potencial bélico e a adotaram para si. Essa espada curta emprestada dos celtas ibéricos foi chamada pelos romanos de “gladius hispaniensis”, ou “espada espanhola” em uma tradução literal.





Tipos e Modelos

Historicamente falando só houve um gládio, que é o tipo “hispaniensis”, porém arqueólogos encontraram em sítios arqueológicos, gládios cujo desenho diferiam ligeiramente da forma do gladius hispaniensis e assim eles definiram que o gládio possuía quatro “versões”.




As quatro definições artificiais que arqueólogos e historiadores usam para o gládio.



É importante ressaltar que para os romanos de outrora, só havia UM TIPO de gládio! Essas nomenclaturas são utilizadas apenas por historiadores e arqueólogos contemporâneos! As diferenças nos desenhos das gladius se dava pelo fato de que a espada era feita de maneira artesanal, por ferreiros em diversas partes do Mediterrâneo, assim era impossível obter uma padronização na fabricação do mesmo!





Maneira de Se Utilizar

Um gládio era utilizado em golpes de estocadas pelos seus usuários. Em testes que eu fiz, a arma se comportou extremamente boa em estocadas e menos satisfatoriamente em golpes que envolviam o corte, confirmando aquilo que eu já havia estudado em documentários, livros, revistas e séries: o gládio foi feito para se perfurar e não cortar, embora o faça muito bem! Quem sabe lutar com facas facilmente se adapta ao gládio, pois ele funciona como uma “faca grande”, grosseiramente falando. Se você tiver um gládio, treine sequências de estocada que visem o abdômen e a garganta do adversário, sendo que o golpe favorito dos legionários romanos era estocar o abdômen de seus inimigos!



Utilizar um gládio é simples, porém exige treinamento no uso da arma, além de resistência física, mas ambos podem ser adquiridos com treino. E lembre-se de que o gládio é uma espada feita para se utilizar com um escudo, sendo que pode-se facilmente adaptar o uso dele com um broquel!



Ao utilizar o gládio da maneira correta (com ataques de estocada e diretos no alvo, sem firulas) facilmente se observa que a arma foi adotada pelos romanos por algumas razões:



·        Simplicidade no desenho, em contraste com a kopis, que é curva. A simplicidade fazia os custos de produção cair.

·        Simplicidade em se utilizar a arma, que basicamente se resume em estocar os adversários com ataques diretos.

·        É uma arma curta, o que facilitava a coesão dos legionários romanos no campo de batalha, que em formação de falange (chamadas de “manipulus” em latim) avançavam ordenadamente como uma massa de pessoas, contra os inimigos.




O Gládio Perante Outras Espadas

Comparar o gládio com outras espadas é covardia, pois é uma arma condicionada a ser utilizada em certas situações no campo de batalha. Para ser 100% eficaz, o gládio precisa:



·        Ser utilizado em conjunto com um escudo (ou broquel).

·        Ser utilizado por soldados que se movam em equipe.

·        Ser utilizado por uma pessoa de baixa estatura.



Quaisquer comparações que se faça com o gládio deverá ser feita sob essa ótica exposta nos tópicos anteriores, caso contrário é pura falácia!





Por Que o Gládio Deixou de Ser Utilizado?

O gládio como dito anteriormente era utilizado pelos legionários romanos em campo de batalha e os mesmos se moviam em equipe. A partir da segunda metade do século II d.C, os inimigos de Roma (mais precisamente os bárbaros germânicos e celtas) passaram a evitar grandes confrontos com os romanos, além de passarem a utilizarem mais cavalaria do que infantaria nas táticas contra os legionários, o que obrigou os imperadores a refazerem taticamente a Legião (Marco Aurélio ordenou que os grandes manipulus fossem desfeitos para que os legionários fossem para a batalha em equipes de até cinco pessoas e que podiam se dispersar caso a necessidade pedisse – Sétimo Severo durante as suas campanhas contra os celtas que viviam no que hoje é a Escócia, viu que a cavalaria inimiga usava uma espada longa durante os seus ataques eficazes contra Roma, então substituiu o gládio pela spatha, sendo o gládio delegado apenas para as tropas de infantaria ligeira).



A arma foi deixada de lado não por falta de capacidade da mesma, mas sim porque a nova realidade tática nas batalhas exigia isso: a arma era curta demais para ser utilizada por tropas de cavalaria, pois Sétimo Severo (reinou de 193 d.C á 211 d.C) teve que enfrentar cavaleiros partos (especialmente os cefratários – ou cataphract) e cavaleiros celtas (ou pictos, se preferir) em longas e sangrentas campanhas militares. A partir dele a importância do legionarii (um infante que combatia a pé) começou a decair em favor do equestrii (ou cavaleiro), mas isso é outra história para outro artigo...


Eu publiquei um vídeo no YouTube falando sobre o Gládio, está em língua portuguesa:




LEIA TAMBÉM: Gládio (Gladius): Como Usar?

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Biografia&Manuais: Walpurgis Fechtbuch






Basicamente desconhecido do público, este manuscrito, o Walpurgis Fechtbuch (sigla bibliotecária MS I.33) é o mais antigo manuscrito de esgrima histórica europeia do qual se tem notícia atualmente: de autoria um tanto quanto desconhecida (acredita-se que tenha sido um padre de nome Liutger – ou Lutegerus), sendo identificada três grafias diferentes nos textos e ao menos uns dezessete traços distintos nas ilustrações. Por falar em grafia, o texto do Walpurgis Fechtbuch é em Latim Medieval.





Origens

O manuscrito teria sido feito por volta de 1320 na região da Francônia, oeste do então Sacro Império Romano-Germânico, atual Alemanha. Ele é bem ilustrado e em suas muitas cenas demonstra lutas de espada e broquel. O manuscrito pode ser atendido também com os nomes de “Liber de Arte Dimicatoria” ou ainda “Torre de Fechtbuch”.



Há quem diga que os criadores estavam tentando preservar a velha tradição marcial que havia na localidade da Francônia.





O Conteúdo

Como anteriormente mencionado, o manuscrito possui lições de espada e broquel, possuindo quatro personagens ilustrados: um Sacerdote, uma Mulher (identificada como Santa Walpurga), um Estudante e um Outro Sacerdote. Os textos repetidamente fazem menção aos pupilos (estudantes ou discípulos) dos sacerdotes, bem como aos jovens (“iuvenis” em latim) e aos clientes (“clientulum” em latim).



Por ter bastante ilustrações, o Walpurgis Fechtbuch possui lições que são facilmente aprendidas, embora as notas que são vistas nas páginas ajudam e muito no refino da execução das técnicas.



Folha 8r do manuscrito com os quatro personagens ilustrados.







História e Atualidades

Criado em 1320, por volta de 1552-53 foi espoliado do mosteiro onde repousava na Francônia, por Johannes Herbart von Wurzburg, que estava á serviço do duque Alberto Arquebaldo (duque de Brandemburgo-Kulmbach) durante as chamadas Campanhas Francônidas que este empreendeu.



Johannes Herbart von Wurzburg posteriormente se tornou mestre de esgrima dos duques de Saxe-Gota e o Walpurgis Fechtbuch ficou em possessão desta família até 1945 (era registrado como Cod.Membr.I.no.115), quando nas últimas semanas da Segunda Guerra Mundial, o manuscrito desapareceu da biblioteca (provavelmente espoliado por algum soldado britânico) onde se encontrava e por cinco anos (1945-1950) o seu paradeiro ficou desconhecido, quando reapareceu na localidade de Sotheby’s (Londres), no dia 27 de Março de 1950 (porém a sua identificação como o desaparecido manuscrito Cod.Membr.I.no.115 só foi efetuado em 1975).



O manuscrito ao ser adquirido em Sotheby’s ficou armazenado na Torre de Londres de 1950 á 1996, quando foi transferido para o então recém-inaugurado Royal Armouries Museum na cidade de Leeds, em West York, Inglaterra, onde permanece até aos dias atuais sob a denominação: MS I.33.


Localização de Leeds, no Reino Unido, onde se encontra a Royal Armouries  Museum.





Eu espero que tenham aprendido sobre este manuscrito! O link para uma cópia com o texto em inglês encontra-se aqui embaixo! Fiquem com Deus!



Walpurgis Fechtbuch, em inglês https://www.dropbox.com/s/9or3jnmv7ave8r2/I_33_Joey_Nitti_Translation.pdf?dl=0


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Biografia&Manuais: Fiore dei Liberi

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Biografia&Manuais: Fiore dei Liberi




Olá! Neste texto eu falarei sobre o mestre da esgrima Fiore Furlano dei Liberi, responsável pelo melhor (ou um dos melhores) manual de artes marciais da Idade Média Européia!





Quem Foi?

Fiore Furlano dei Liberi, nasceu na região da Friuli (em Cividale del Friuli), nordeste da Itália por volta de 1340 e veio á falecer em torno de 1420. Era filho de Benedetto dei Liberi e membro da baixa nobreza italiana, os “Nobili Liberi”, de onde deriva o sobrenome da sua família.








 Região da Friuli no mapa da Itália
Provável imagem representativa de Fiore dei Liberi 





Em sua auto-biografia (contida nos manuais que escreveu) Fiore afirmou que desde cedo sempre teve inclinação para as artes marciais e que em toda a sua vida, teve que duelar por sua honra cinco vezes contra mestres de esgrima charlatães, que de acordo com ele não tinham as qualidades mínimas para serem sequer alunos de esgrima, o que dizer mestres! Esses duelos foram travados utilizando-se apenas gambesons e luvas, tendo Fiore ganhado os cinco duelos sem nem mesmo um arranhão!



No fim de sua vida, escreveu ao menos dois manuais, intitulados em latim “Flos Duellatorum” que em uma tradução livre significaria algo como “Flor da Batalha” (sendo o termo “flor” indicativo de “o melhor”, sendo assim uma possível tradução refinada seria algo como: “o Melhor do Combate”).





Manuais

Os manuais que Fiore escreveu (e que chegaram até nós) são manuscritos (ou seja, feitos à mão) e que possuem as seguintes denominações (dada pelos bibliotecários das bibliotecas onde se encontram armazenados):



·        MS Ludwig XV 13

·        Pisani Dossi MS

·        MS M.383

·        MS Latin 11269



Os dois primeiros (MS Ludwig XV 13 e Pisani Dossi MS) possuem dedicatórias á Nicolau III d´Este e os outros dois aparentemente foram cópias feitas tendo os primeiros como referência.



Os manuais apresentam as seguintes “figuras” para melhor aprendizado:



·        Mestres: nas ilustrações usam coroa dourada na cabeça e servem para demonstrar uma determinada guarda de uma arma.

·        Remédio: estão nas ilustrações para demonstrar técnicas defensivas. Nas ilustrações usam uma faixa dourada em uma das pernas e representam os estudantes da arte/disciplina.

·        Contrário: usa coroa (na cabeça) e faixa (em uma das pernas) e é uma figura que demonstra técnicas de contra-ataque.

·        Contra-Contrário: assim como o Contrário, usa coroa dourada na cabeça e faixa em uma das pernas e servem como ilustrações para técnicas de contra-ataque ao contra-ataque.






Figura de um Mestre.

Figura de um Remédio.
 Figura de um Contrário e de um Contra-Contrário (mesma imagem para representar ambos).





Disciplinas Abarcadas nos Manuais

O Flos Duellatorum abrange oito disciplinas:



·        Abrazare (luta desarmada, semelhante á Wrestilng/Judô).

·        Adaga.

·        Espada de Uma Mão (Espada sem Broquel).

·        Espada de Duas Mãos (Espada Longa).

·        Azza (um tipo de machado de cabo longo).

·        Lancia (Lança).

·        Combate á Cavalo.

·        Bastão.



É importante salientar, que existem interações entre as oito disciplinas, como (por exemplo) o ensino de como defender-se de um ataque de adaga, usando o abrazare ou ainda como usar uma espada contra alguém usando adaga e por aí vai...



Fiore e os seus manuais (especialmente o MS Ludwig XV 13 – o mais completo de todos) são muito aclamados em diferentes comunidades de HEMA, especialmente aquelas que se dedicam ao aprendizado de esgrima histórica com a Espada Longa (Longsword), mas o mestre também ensina outras disciplinas, lembre-se sempre disso!



Em sua obra, o mestre Fiore dei Liberi ensina doze guardas com a Espada Longa (ou Espada de Duas Mãos - Longsword), que serão brevemente estudadas em um outro artigo.





Fiquem com Deus e até a próxima!



LINKS PARA OS MANUAIS FLOS DUELLATORUM (“FLOR DA BATALHA” - MS Ludwig XV 13):



Manual Flor da Batalha em inglês: http://wiktenauer.com/wiki/File:Getty_MS_Ludwig_XV_13_Scans_with_English_Translation.pdf



Manual Flor da Batalha em francês: https://wiktenauer.com/wiki/Fiore_de%27i_Liberi/French


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Biografia&Manuais: Walpurgis Fechtbuch


Biografia&Manuais: O Rei D.Duarte I e a Sua Obra de HEMA!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A Cavalaria na Era Antiga




Olá! Hoje eu vou falar sobre a Cavalaria, porém não aquela á qual estamos habituados, mas sim a Cavalaria durante a Era Antiga (3000 a.C – 476 d.C).





Início

Os mesopotâmicos (sumérios, acádios, amoritas...) tinham medo dos cavalos e os consideravam demônios. Quando os cassitas apareceram usando cavalos em suas ações militares, rapidamente os amoritas (conhecidos também como “Paleo-Babilônicos”) os contrataram como mercenários.



Após isso, os cavalos só teriam real importância militarmente falando, quando egípcios, mitanis e hititas os utilizavam para puxarem as suas carruagens de guerra (a partir do século XV a.C).



A Cavalaria como a conhecemos só passou a existir a partir do século VIII a.C, quando os citas, vindos das Estepes da Ásia Central, invadiram o que hoje em dia chamamos de Irã e Iraque. Os citas podem ter sido expulsos pelos assírios da Mesopotâmia, porém instalaram-se no Planalto Iraniano, mesclando-se com as tribos de pastores ali existentes, entre eles os persas, que passaram a se valerem de Cavalaria em suas incursões expansionistas constantes sobretudo a partir de 553 a.C, quando o rei persa Ciro II, revoltou-se contra o rei dos medos, Ciaxares.



Durante os séculos VI a.C e V a.C, no Ocidente, o cavalo era utilizado basicamente para transportar pessoas, pois na Hélade (Grécia) e em Roma os combates se davam em planícies ou em montanhas utilizando-se tropas de infantaria para tal.



Porém os macedônios foram invadidos pelos persas e aparentemente aprenderam com estes á montar à cavalo e a combaterem montados nestes animais. Posteriormente com a prevalência da Macedônia no mundo (através das lendárias campanhas de Megas Alexândros – Alexandre, o Grande) este modelo de combatente (o Cavaleiro) foi exportado para diversas partes do Mediterrâneo, chegando até mesmo aos povos celtas e germânicos (embora estes últimos possam ter aprendido a lutar montados à cavalo com tribos citas ou sarmatianas).





Funções da Cavalaria na Era Antiga

Seja como for, a Cavalaria durante a Era Antiga (em um período entre 650 a.C à 476 d.C) se concentrava em quatro funções básicas em campanhas militares:



1.   Perseguir inimigos derrotados.

2.   Como batedores do terreno á ser explorado.

3.   Como coletores e transportadores de víveres.

4.   Para ataques rápidos e localizados.





A Cavalaria no Ocidente

No Ocidente sobretudo, montar à cavalo era status: comandantes militares costumavam ir para a batalha montados nos lombos de equinos e em Roma existia a classe dos “Equestres”: pessoas que possuíam dinheiro suficiente para adquirirem um cavalo, era o equivalente á classe média ou média-alta que possuímos hoje em dia no Brasil.



Os númidas, os celtas, os macedônios e os romanos possuíram em algum tempo uma ótima Cavalaria (para os padrões da Antiguidade), que terminou por marcar história.



No mais é isso! Fiquem com Deus e até a próxima!


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